A modorra das duas da tarde apanhara-o no banco de madeira onde se instalara, por baixo do sobreiro solitário que crescera na beira da estrada, à saída da vila. Tirara a boina de fazenda deixando à mostra uma cabeleira esparsa por onde se entrevia um escalpe vermelho como, de resto, o era todo o rosto já frisado do Ti’Jacinto Flores.
As folhas do jornal desportivo com que se entretinha e de cujas notícias apenas conseguia ler os títulos, curta que era já a sua visão, elevavam-se suavemente com a ligeira brisa quente que afagava todo o baixo Alentejo nos meses de Verão.
Àquela hora poucos eram os que se atreviam a transitar pelas ruas da vila e enfrentar a soleira escaldante, de modo que apenas quando o comércio reabria as portas, a partir das três da tarde, alguma agitação começava a mover nas artérias da parte nova onde os prédios mais altos tinham já quatro andares.
Naquela década de oitenta que se iniciava Ti’Jacinto Flores sentia que muita coisa mudava por aqueles lados. A Revolução, que seis anos antes trouxera a liberdade e a esperança no progresso e num Alentejo próspero, devolvera à terra alguns milhares e retornados de África e outros que, não sendo da terra, lá se instalaram, atraídos pela nova indústria que se fixava no litoral e que, pensava ele, era como uma cruel madrasta que com uma mão trazia o desenvolvimento e com a outra expropriava terras a quem as cultivava.
Sim, muita coisa haveria de mudar e no ar sentia-se aquela tensão que acompanha as coisas importantes e marcantes. Nas esplanadas que iam surgindo nos largos da vila a nova burguesia emergente exibia novos hábitos e modelos importados de Lisboa enquanto convivia com a classe mais modesta que lhes invejava os modos e os haveres e para quem ir à Capital era mais ou menos como fazer a viagem das suas vidas.
Azedumes à parte, o facto, pensava Ti’Jacinto Flores, é que o capital ia dando o ar da sua graça por ali e iam surgindo cada vez mais automóveis - “E pensar que a primeira máquina que existiu em Portugal foi trazida para o Alentejo por um tal de Conde d’Avilez! Naquela altura era coisa tão estranha que muitos se assustavam quando passava, pensando que era obra do demo, e logo na primeira viagem o Conde, pouco habituado à condução, atropelou um pobre burro que se lhe atravessou ao caminho”.
Agora havia também muito mais crianças na vila, de tal forma que a Câmara até mandara construir uma nova escola. Os miúdos passavam aos molhos ao fim da manhã e depois ao fim da tarde no Largo dos Combatentes. Era como um bálsamo de vida aquela vaga de gritos, gargalhadas, saltos e correrias. Ti’Jacinto Flores era daqueles que lhes atirava disfarçadamente com moedas de dois e quinhentos que os gaiatos, em estupefacção e fascínio, pensavam vir do espaço onde algum astronauta as deixara cair do bolso.
Deu por si a sorrir. Ti’Jacinto Flores amava o Alentejo, amava a sua terra, os seus cheiros, os abafos do Verão e as rijezas do Inverno, e todas as suas cores e nuances – as antigas e as novas, a sua gente, a sua beleza e aquela modorra das duas da tarde.
Levantou-se, inspirou profundamente, colocou a sua boina de fazenda e pôs-se a caminho do fresquinho de sua casa, apoiado no seu cajado, cumprimentando a todos com quantos se cruzava. Era um costume simpático e familiar esse – toda a gente se cumprimentava na rua, os conhecidos e os estranhos. Hoje já não é assim. Tanto que já não é assim.
Pedra Pomes