Sexta-feira, Setembro 09, 2005

Já gastámos as palavras

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Quarta-feira, Maio 25, 2005

1980

A modorra das duas da tarde apanhara-o no banco de madeira onde se instalara, por baixo do sobreiro solitário que crescera na beira da estrada, à saída da vila. Tirara a boina de fazenda deixando à mostra uma cabeleira esparsa por onde se entrevia um escalpe vermelho como, de resto, o era todo o rosto já frisado do Ti’Jacinto Flores.
As folhas do jornal desportivo com que se entretinha e de cujas notícias apenas conseguia ler os títulos, curta que era já a sua visão, elevavam-se suavemente com a ligeira brisa quente que afagava todo o baixo Alentejo nos meses de Verão.
Àquela hora poucos eram os que se atreviam a transitar pelas ruas da vila e enfrentar a soleira escaldante, de modo que apenas quando o comércio reabria as portas, a partir das três da tarde, alguma agitação começava a mover nas artérias da parte nova onde os prédios mais altos tinham já quatro andares.
Naquela década de oitenta que se iniciava Ti’Jacinto Flores sentia que muita coisa mudava por aqueles lados. A Revolução, que seis anos antes trouxera a liberdade e a esperança no progresso e num Alentejo próspero, devolvera à terra alguns milhares e retornados de África e outros que, não sendo da terra, lá se instalaram, atraídos pela nova indústria que se fixava no litoral e que, pensava ele, era como uma cruel madrasta que com uma mão trazia o desenvolvimento e com a outra expropriava terras a quem as cultivava.
Sim, muita coisa haveria de mudar e no ar sentia-se aquela tensão que acompanha as coisas importantes e marcantes. Nas esplanadas que iam surgindo nos largos da vila a nova burguesia emergente exibia novos hábitos e modelos importados de Lisboa enquanto convivia com a classe mais modesta que lhes invejava os modos e os haveres e para quem ir à Capital era mais ou menos como fazer a viagem das suas vidas.
Azedumes à parte, o facto, pensava Ti’Jacinto Flores, é que o capital ia dando o ar da sua graça por ali e iam surgindo cada vez mais automóveis - “E pensar que a primeira máquina que existiu em Portugal foi trazida para o Alentejo por um tal de Conde d’Avilez! Naquela altura era coisa tão estranha que muitos se assustavam quando passava, pensando que era obra do demo, e logo na primeira viagem o Conde, pouco habituado à condução, atropelou um pobre burro que se lhe atravessou ao caminho”.
Agora havia também muito mais crianças na vila, de tal forma que a Câmara até mandara construir uma nova escola. Os miúdos passavam aos molhos ao fim da manhã e depois ao fim da tarde no Largo dos Combatentes. Era como um bálsamo de vida aquela vaga de gritos, gargalhadas, saltos e correrias. Ti’Jacinto Flores era daqueles que lhes atirava disfarçadamente com moedas de dois e quinhentos que os gaiatos, em estupefacção e fascínio, pensavam vir do espaço onde algum astronauta as deixara cair do bolso.
Deu por si a sorrir. Ti’Jacinto Flores amava o Alentejo, amava a sua terra, os seus cheiros, os abafos do Verão e as rijezas do Inverno, e todas as suas cores e nuances – as antigas e as novas, a sua gente, a sua beleza e aquela modorra das duas da tarde.
Levantou-se, inspirou profundamente, colocou a sua boina de fazenda e pôs-se a caminho do fresquinho de sua casa, apoiado no seu cajado, cumprimentando a todos com quantos se cruzava. Era um costume simpático e familiar esse – toda a gente se cumprimentava na rua, os conhecidos e os estranhos. Hoje já não é assim. Tanto que já não é assim.

Pedra Pomes

Quinta-feira, Maio 19, 2005

I'm watching you


"Se não tens nada de jeito para dizer mais vale que fiques calada", é o que tenho repetido para mim própria diversas vezes ao longo dos últimos dias, por isso, e dado que a inspiração "foi ali já vem" (espero eu), vou ficar por aqui, caladinha, de olho em vocês.

Pedra Pomes

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Quinta-feira, Maio 12, 2005

Encanecer

O Jorge lançou o desafio e eu fiquei a pensar no assunto. Aqui fica um bocadinho (pequenino) do tanto que pode ser dito sobre o tema.

O Daniel tinha uns vinte e quatro ou vinte e cinco anos, estudava medicina em Lisboa. Lembro-me de o ver de vez em quando nos fins de semana em que voltava a casa dos pais, nossos vizinhos. Eu tinha uns cinco e achava-o imensamente adulto, sendo que “adulto” era a figura do pai e da mãe, do que de mais respeitável e responsável pode existir. Hoje tenho trinta e acho que sou uma miúda. O pior (ou melhor) é que me parece que vou sentir-me assim ainda por muito tempo - assim o espero.
Obviamente que a noção que temos das coisas se altera com o passar dos anos, mas uma vez aqui chegada nada vejo do que esperava encontrar, apesar de o inexorável passar do tempo não perder oportunidades para ir deixando as suas marcas. E vou tomando consciência disso quando me apercebo de que já sou tratada por “senhora” mais vezes do que por “menina”.
O tanto que mudou no mundo num espaço de trinta anos! Antigamente as pessoas chegavam aos oitenta e deixavam para trás uma prole que os acarinhava na velhice e na quase inevitável doença. Hoje, cada vez mais, morre-se aos trinta com AVC, aos quarenta com um enfarte, ou muito pior, aos vinte num acidente de viação.
A forma como vivemos hoje em dia atira-nos para esta ratoeira. Nada me assusta mais do que uma vida ceifada pelo caule.
É difícil, se não impossível, dizer se seremos/seríamos felizes aos oitenta, mas acho que todos gostamos de pensar numa velhice tranquila e com muito amor e a saúde possível. Até lá, que o caminho seja o que tiver de ser, encanecendo aos poucos.

Pedra Pomes

Quarta-feira, Maio 11, 2005

E ainda a música

Gosto mesmo desta música! para a ilustrar escolhi esta imagem:
"Mary"
I love the tone that's in your laugh
Gasping for an extra breath
Waiting for the time to pass
I believe in days ahead
Don't spend another night alone
Cross and wishing you were dead

Mary, you should'nt let 'em make you mad
You hold the best you can
And Mary, after all the pain is gone
I'm always gonna live to be your man

I've had it easy now you see
When I'm down your'e always there
Standing by to comfort me
Someday we'll go round the world
I'll make the journey so sublime
I know you're not a travelln' girl

Mary, you should'nt let 'em make you mad
You hold the best you can
And Mary, after all the pain is gone
I'm always gonna live to be your man

Cause I'd give everything I have
Forget all the things that bring me joy
If you could have one day
Pure and simple happiness
Until that moment comes
I'll be here where I've always been
I'm gonna be your friend
Until the day I die

Mary, you should'nt let 'em make you mad
You hold the best you can
And Mary, after all the pain is gone
I'm always gonna live to be your man
Canção: Mary
Scissor Sisters
Aqui podem ver e ouvir o video.
A imagem foi retirada daqui.
As fotos são fabulosas, vale a pena ver.

Terça-feira, Maio 10, 2005

Killing me softly

Ou o que Roberta Flack pode ter a ver com o Metropolitano de Lisboa

Gosto muito de saxofone. Infelizmente não sei tocar, mas aprecio bastante a sonoridade. Acho-a quente e sensual, capaz de trazer um intimismo reconfortante a um ambiente frio e impessoal. Imagino-o tocado nas ruas da cidade numa noite chuvosa de Inverno ou num vão de escada onde a escuridão é cortada apenas por um fino feixe de luz laranja vindo sabe-se lá de onde. Num acometimento de romantismo consigo ainda colocar um saxofonista à beira rio numa noite de luar debitando notas em direcção às águas ondulantes em tons de preto e prata.
Perdoem-me os eruditos mas é também por este misticismo quase cinematográfico, de cores quentes e frias e de cenários, que gosto de saxofone e é por causa do saxofone que gosto de algum Soul e de algum Jazz, ressalvando a minha total ignorância na matéria. Gosto de ouvir e pronto.
E foi por tudo isto que agradavelmente me surpreendi quando há dias entrei numa carruagem de metro apinhada, entre diversos com licença e desculpe, procurando um espacinho onde pudesse assegurar a função vital que constitui o acto de respirar e maldizendo o meu livre arbítrio por não ter esperado pela próxima composição, quiçá um pouco mais liberta daquela mole que eu considero sempre, lamento, pegajosa.
Estava prestes a contrair um mau humor que certamente se faria sentir o resto do dia, quando, vindo mesmo ali do lado, o som do sax brindou a todos com um Killing me softly, da Roberta Flack, excelentemente executado.
Ao senhor que proporcionou aquele momento e que me fez ficar a pensar nas coisas que nos dão prazer e que aparecem out of the blue quando menos esperamos, para nos deixar de boa disposição, o meu sincero Obrigado. Percebi que não era português, por isso aqui lhe deixo os meus votos para que volte mais vezes.
Quanto à mole, dispersou duas ou três paragens depois.
Pedra Pomes